Em forma de carta, na véspera de completar 100 anos, no limiar de sua finitude, o autor faz reflexões sobre o mundo moderno.Transcrevi um trecho bastante significativo, que postei abaixo. É para ler e pensar!
“Tão desesperadas eram minhas buscas que então não pude perceber que essa era a última vez que eu veria minha mãe com saúde, de pé, e que essa dor duraria para sempre, como agora, nesta noite em que a recordo entre lágrimas.
Entre o que desejamos viver e a pífia agitação em que transcorre a maior parte da vida, abre-se uma cunha na alma que separa o homem da felicidade como o exilado de sua terra. Porque naquele instante, enquanto minha mãe ficava lá parada, imóvel, não podendo reter o seu filho e não querendo fazê-lo, eu, surdo a seu mínimo apelo, já corria atrás de minhas febris utopias, pensando assim cumprir com minha vocação mais profunda. E, embora nem a ciência, nem o surrealismo, nem meu compromisso com o movimento revolucionário tenham satisfeito minha sôfrega sede de absoluto, orgulho-me de ter vivido entregue àquilo que me apaixonou. Nesse trânsito, impuro e contraditório como todo atributo do movimento humano, fui salvo por um senso intuitivo da vida e por uma decisão desenfreada diante do que eu considerava verdadeiro. A existência me parecia, assim como ao personagem de A Náusea, um insensato, gigantesco e gelatinoso labirinto; e, assim como ele, senti o anseio de uma ordem pura, de uma estrutura de aço polido, nítido e forte. Quanto mais eu era acossado pelas sombras do mundo noturno, mais me aferrava ao universo platônico, pois quanto maior é o tumulto interior, mais inclinados nos sentimos a nos refugiar em alguma ordem. Assim, nossas buscas, nossos projetos ou trabalhos nos privam de ver os rostos que mais tarde se revelarão os verdadeiros mensageiros daquilo que procurávamos,e, ao mesmo tempo, as pessoas que devíamos ter acompanhado ou protegido.”
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