quarta-feira, 5 de maio de 2010

O crepúsculo de um homem

   Estou lendo um pequeno livro do escritor argentino Ernesto Sábato (A Resistência, Companhia das Letras).
   Em forma de carta, na véspera de completar 100 anos, no limiar de sua finitude, o autor faz reflexões sobre o mundo moderno.Transcrevi um trecho bastante significativo, que postei abaixo. É para ler e pensar!


“Tão desesperadas eram minhas buscas que então não pude perceber que essa era a última vez que eu veria minha mãe com saúde, de pé, e que essa dor duraria para sempre, como agora, nesta noite em que a recordo entre lágrimas.
Entre o que desejamos viver e a pífia agitação em que transcorre a maior parte da vida, abre-se uma cunha na alma que separa o homem da felicidade como o exilado de sua terra. Porque naquele instante, enquanto minha mãe ficava lá parada, imóvel, não podendo reter o seu filho e não querendo fazê-lo, eu, surdo a seu mínimo apelo, já corria atrás de minhas febris utopias, pensando assim cumprir com minha vocação mais profunda. E, embora nem a ciência, nem o surrealismo, nem meu compromisso com o movimento revolucionário tenham satisfeito minha sôfrega sede de absoluto, orgulho-me de ter vivido entregue àquilo que me apaixonou. Nesse trânsito, impuro e contraditório como todo atributo do movimento humano, fui salvo por um senso intuitivo da vida e por uma decisão desenfreada diante do que eu considerava verdadeiro. A existência me parecia, assim como ao personagem de A Náusea, um insensato, gigantesco e gelatinoso labirinto; e, assim como ele, senti o anseio de uma ordem pura, de uma estrutura de aço polido, nítido e forte. Quanto mais eu era acossado pelas sombras do mundo noturno, mais me aferrava ao universo platônico, pois quanto maior é o tumulto interior, mais inclinados nos sentimos a nos refugiar em alguma ordem. Assim, nossas buscas, nossos projetos ou trabalhos nos privam de ver os rostos que mais tarde se revelarão os verdadeiros mensageiros daquilo que procurávamos,e, ao mesmo tempo, as pessoas que devíamos ter acompanhado ou protegido.”

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Non fuit in solo Roma peracta die

"Roma não se fez em um dia"



Os jornais mais uma vez erram ao omitirem-se sobre as datas históricas do Brasil. Na edição deste feriado nacional de 21 de Abril, na Folha de São Paulo, salvo 3 parágrafos escritos pelo promotor Roberto Livianu, não há menção sobre o personagem Tiradentes. Não é preciso muito esforço para entender a importância deste personagem no contexto do Brasil colônia, sua participação fundamental nos ideais que inspiraram o movimento da Inconfidência Mineira, este semente da futura república.      
   Com pesar observo que os jornais não tem compromisso com a memória brasileira, nem tampouco com as novas gerações de leitores, cujos fatos históricos como este vão ficando cada vez mais distantes da formação político-social do jovem brasileiro, ao deixar que este e outros assuntos restrinjam-se aos livros escolares, apenas como um fato histórico a ser estudado dentro de um entediante conteúdo geral. 
   A sociedade brasileira via de regra não tem o hábito salutar de olhar o passado e tirar lições para o futuro: A imprensa diária parece compartilhar deste viés social, perdendo, mais uma vez, a oportunidade de contribuir para uma sociedade melhor. Aliás, este fato vem se repetindo. Na data da Revolução Constitucionalista de 9 de Julho, os jornais ignoraram solenemente a importância deste momento histórico na busca de um estado constitucional.
   Espero que a imprensa escrita reveja sua postura perante os fatos relevantes da história brasileira, afinal como dizia Confúcio "estuda o passado se queres prognosticar o futuro."

domingo, 11 de abril de 2010

Urbi et Orbi

   Não, não estou me reportando às mensagens papais, mas me referindo à mesma cidade que eles habitam...
   Os historiadores já disseram que a sociedade humana evolui por um processo cíclico, com  periodos de apogeu e de decadência. Pois bem, acabei de ler uma coletânea de artigos sobre a sociedade romana (Arquivos da História Viva, edição especial nº 5, Editora Duetto), que mostra como esta sociedade, de mil anos, alicerçou o modus vivendi do mundo ocidental cristão. É incalculável  o legado romano: as transações comerciais ( livros contábeis, taxas de câmbio, bancos privados, agiotagem, fundos de aplicação, notas promissórias,etc..) todas muito familiares para nós hoje em dia; o Direito Romano, base do direito ocidental, as organizações militares, os correios (altamente eficientes para a época), a arquitetura, enfim, uma verdadeira superpotência da idade antiga. Mundo globalizado, no século XX? Vejam isto: os romanos consumiam presuntos defumados espanhóis, salames e vinhos da Gália, galinha de Angola, esturjão dos bálcãs, ameixas de Damasco, cerejas da ásia, linho e trigo do Egito. Naturalmente, tudo servido nas baixelas de ouro e pedras preciosas "confiscadas" no oriente. 
   O mundo girava em torno de Roma. Vejam o que  escreveu Virgílio, na Eneida: " Outros talvez, que não tu, saberão, acredito, dar melhor vida ao bronze e tirar do mármore vívidas figuras; outros saberão melhor defender causas, melhor descrever o movimento dos céus e a rota dos astros. Mas tú, romano, lembra-te que nasceste para impor tuas leis ao universo. Teu destino é ditar tuas condições de paz, poupar os vencidos e domar os soberbos."
   Perfeitamente aplicável nos dias de hoje, não?

sábado, 10 de abril de 2010

Os fins justificam os meios ?



 
Este texto foi transcrito do site "Observatório da Imprensa". Leiam o artigo "Pedófilos, Celibatários e Infalíveis" do Contardo Caligaris (Ilustrada, Folha de São Paulo de 01/04/10): ele faz uma ótima análise sobre a noção equivocada  do que ele chama de "teoria hidraúlica", e os reais motivos da pederastia .
 
 
 
CATACUMBAS DO SILÊNCIO
A "Legião" desmorona, ninguém noticia
Por Alberto Dines em 30/3/2010
Na sexta-feira (26/3), em Roma, o comando da Legião de Cristo rendeu-se às evidências sobre a vida dupla ou tripla do seu fundador, o padre mexicano Marcial Maciel (1920-2008). Num breve comunicado admitiu, consternado, que "são certas as acusações contra o padre Maciel, entre as quais se incluíam abusos sexuais a seminaristas menores". O comunicado renegando o seu fundador foi assinado pelo atual diretor-geral da ordem, Álvaro Corcuera.
A inédita proclamação foi para a primeira página dos jornais europeus de sábado (27). O prestigioso El País dedicou-lhe duas páginas, uma delas com enorme foto do pontífice João Paulo II recebendo em audiência o sacerdote mexicano que tanto apreciava e tanto estimulou.
O padre Maciel não era apenas um assumido pedófilo (El País prefere usar a nomenclatura técnica: pederasta). Também abusou de seus filhos quando eram pequenos. Filhos? Além do pecado da sodomia, Marcial Maciel, quebrou os votos de castidade e viveu maritalmente com Blanca Estela Lara (que conheceu quando tinha 18 e ele 56 anos), com quem teve três filhos.
A família apareceu há dias na TV mexicana e uma das crianças, agora adulto, contou com escabrosos pormenores com o seu pai tentou violá-lo e o obrigava a masturbá-lo.
Biografia imaculadaNossos jornais e revistas não têm correspondentes no México. Mas têm em Roma. Nada disso foi publicado aqui nem no sábado, nem no domingo. A Legião de Cristo funciona no Brasil desde 1985. Em 2006, quando Bento XVI determinou que Marcial Maciel (então com 84 anos) se dedicasse apenas às orações e penitências, o caso foi escondido. Não era notícia. Esta é uma das centenas de não-notícias que uma imprensa engajada e assumidamente confessional como a nossa não se sente obrigada a publicar.
É preciso lembrar que Maciel não era apenas um pecador (na linguagem religiosa), criminoso (em termos jurídicos) ou um tarado (em linguagem corrente) – era um militante político de extrema importância. A ordem dos Legionários de Cristo (fundada em 1941) era o braço armado da direita católica. Prosperou durante a longa ditadura franquista na Espanha e expandiu-se no Novo Mundo apoiada por uma igreja identificada com o que havia de mais conservador no espectro político.
A ordem conta hoje – segundo El País – com 900 sacerdotes, 3 mil seminaristas e 70 mil membros laicos espalhados por 18 países, Estados Unidos inclusive. Tem educandários, universidades e conta com formidáveis apoios empresariais.
De acordo com Garry Wills (historiador emérito, jornalista premiado, autor de 40 livros), a Legião de Cristo aparece nos créditos da famigerada produção de Mel Gibson, A Paixão de Cristo, e, junto com a Opus Dei, tentou extrair do Vaticano um endosso espiritualpara o filme (The New York Review of Books, 8/4/2004; ver aqui, em inglês).
Importante registrar que as duas organizações e seus fundadores assemelham-se tão somente no aspecto ideológico e no incentivo que receberam do Vaticano. Josemaria Escrivá de Balaguer (1902-1975), criador da Opus Dei, canonizado em 2002, tem uma biografia imaculada. A de Maciel é a de um patife: além das imoralidades pessoais, passava-se por alto funcionário da Shell e agente da CIA.
Silêncio obsequiosoA confirmação das heresias e apostasia de Marcial Maciel veio muito tarde. Há 13 anos, um canal de TV mexicano (CNI Canal 40) preparou uma longa reportagem sobre os abusos cometidos por Maciel. O diretor do programa, jornalista Ciro Gomez Leyva convidou Legionários a contestar as acusações. A partir daquele momento a pressão da Igreja mexicana e da própria presidência da República tornou-se brutal. O documentário foi ao ar, mas no dia seguinte iniciou-se um bloqueio publicitário contra a emissora.
"Um dos mais vergonhosos casos de censura da história do México", relembra Leyva. "O poder e a fortuna dos Legionários de Cristo conseguiram, durante anos, converter o sofrimento de dezenas de vítmas em conspirações falsas e infundadas" (El País, 27/3/2010, págs. 28-29).
Vergonhoso também é o comportamento da imprensa brasileira (exceto Veja), que até hoje não conseguiu dar seqüência à reportagem de Roberto Cabrini emitida no SBT no dia 11/3 sobre os abusos sexuais praticados por um monsenhor em Arapiraca (AL) (ver, nesteObservatório, "Crimes sem punição" "Começou o outono ou é uma primavera?")

domingo, 7 de março de 2010

Caro Leitor

Convido-os a participar deste blog. Vivemos em uma época de grandes transformações, em todos os níveis da atividade humana. Assim, abri este espaço com o intuito de pensar, de forma ampla e democrática, o mundo em que vivemos. Este não será um blog convencional, focado em um tema específico ou como apenas expressão pessoal do autor sobre determinado assunto. Literatura, cinema, ciência, história, política, entre outros, terão aqui espaço para discussão: claro que os “posts” serão pautados pelo olhar do autor, porém não como um fim em si mesmo, mas como um ponto de partida.

Bem vindos ao blog “Veritatis Mundi”